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quinta-feira, 25 de junho de 2015

terça-feira, 7 de abril de 2015

NEIDE GERMANO - um lugar da poesia!




Recebo, na noite da segunda-feira, 06 de abril, a visita, sempre simpática, da poeta, compositora e cantora, Neide Maria Germano. Como em todas as vezes que ela vem, nós conversamos demoradamente sobre processo criativo, novas canções, novas poesias. Neide transborda poesia de sua pequenina figura. Dessa vez, trouxe uma agradável novidade: está gestante. Neide está gestando um novo CD. Aliás, o seu primeiro rebento. Neide que cantar o seu lugar. Neide irá cantar o seu lugar... O lugar de Neide é, antes de mais nada, a poesia de Neide. Neide é um lugar-poético, um ser/estar cheio de luz e de lirismo. As toadas, as modinhas, os afoxés melodiosos, os sambas batidos na palma das mãos... Neide faz das suas reminiscências, ritmo. Ritmo do farfalhar das folhas do umbuzeiro, do tilintar dos chocalhos do gado miúdo. Neide canta e conta histórias vividas, vivências. Revivescências musicais. E aí entram as loas e côcos gingados, que ouviu da sua mãe; ecoam as histórias e estórias da velha fazendola em Surubim... Neide conta, encanta e canta suas cantigas sem fim... Nesse vídeo, ela deixa pistas do seu cantar. A poesia, Neide, é o seu lugar!




segunda-feira, 17 de março de 2014

INVASÃO CULTURAL NAS COMUNIDADES

"Matias de Albuquerque punha sentinelas nas elevações de Olinda, para anunciar os mastros inimigos. Mas quem vê as forças que hoje nos invadem?" (Osman Lins, in A Rainha dos Cárceres da Grécia) 

 Primeiro eles transmutam os cidadãos em consumidores. É tanto que nossa lei mais famosa é o Código do Consumidor. Consumidor não pensa, consome. Não cria, consome. Não fabrica, consome. Não critica, não polemiza, não transforma. Consumidor não precisa fazer cultura popular. Eu lhes trago um pacote pronto, idealizado e produzido por uma empresa e, zás!, o pacote é consumido vorazmente. Pois é... até que me provem o contrário, fiquei com uma impressão que o MCP-pocket que foi apresentado ontem na Praça da Várzea, embalado pra viagem com o pomposo título de Caravanas do Movimento de Cultura Popular é mais uma forma de desarticular os que fazem cultura nos bairros. Não houve divulgação, interação, articulação, nada! No fim da tarde, passou um carro-de-som e à boca da noite já estavam com tudo montado no coreto. A qualidade do espetáculo é boa, não resta dúvida. Não critico aqui os atores e dançarinos do Boi D'Loucos, que tem origens no movimento cultural do bairro da Casa Amarela. Mas, nada que a Várzea não venha fazendo há décadas, e aqui se faz com o povo, junto e misturado. Cultura popular se faz na rua. E esses que planejaram essa Caravana do MCP, ao que parece, pretendem retomar o projeto original, (que também aconteceu aqui na Várzea, nas Praças de Cultura, do Prefeito Miguel Arraes, antes do Golpe), com a feição elitizada que vem marcando a nova gestão da Prefeitura. Será que querem reeditar o MCP como se fosse uma franquia, um MCP-kitsch, sem a participação popular? E o pior, para uma geração de consumidores, que já não questiona a realidade e que se torna presa fácil dos manipuladores. Seria uma versão do MCP-ópio-do-povo? Espero estar completamente equivocado nessas minhas cismas. Espero que essa Caravana não seja oportunista e eleitoral. Espero e minha esperança não morreu. Sempre fui um arraesista e isso herdei de meu pai. Por isso, não admito que uma de suas ações mais fecundas, o Movimento de Cultura Popular seja apresentado como um produto, como um objeto de consumo, com possibilidade de chegar à campanha eleitoral como mera peça publicitária de algum marketeiro fdp. O MCP merece respeito! Se eu estiver enganado, contem com minha adesão incondicional. Mas não me venham com políticas culturais de cima pra baixo, pois o povo das comunidades aprendeu a discernir o joio do trigo. Com a palavra a Fundarpe.

terça-feira, 28 de maio de 2013

TECNOLOGIA - PRA QUÊ MESMO?





 Os três estágios da técnica, segundo Ortega y Gasset:
 1. a técnica do acaso; 2. o artesanato; 3. a técnica do técnico.


 1 A técnica do acaso não consegue senão um escasso repertório de atos, sempre iguais, produzindo as mesmas coisas, e que mal se distinguem da atividade natural biológica. Falta ao seu beneficiário, o chamado primitivo ou selvagem, consciência específica de seu precário instrumental, um prolongamento da manejabilidade da mão, de que, um dia, Engels fez exaltado elogio. Se ele inventa, não sabe que inventa.

2 Já no segundo estágio, o repertório aumenta, acompanhado pela consciência de que o seu uso, parte de uma tradição estabilizada, demanda a capacidade especial de alguns homens: os artesãos, artífices e profissionais, conservadores por excelência; o que fabricam ou modificam resulta de uma aprendizagem herdada, esquecida, que continua inercialmente, como repetição de práticas passadas, fixando-se num sistema de artes e ofícios. Mas o artesão é, ao mesmo tempo, técnico e operário, o que sabe e o que executa.

3 A técnica do técnico é aquela do pleno conhecimento das práticas em uso, quando o homem chega a fabricar o instrumento que pode fabricar tudo: a máquina. Então o conhecimento pleno das práticas e, portanto, da técnica, corresponde à noção de uma só capacidade ilimitada de fazer e de produzir. Ortega aqui, já tem aqui em vista a técnica avançada, a tecnologia, que separa o técnico do operário, e cujas potencialidades incalculáveis assustam. Devido a essa capacidade para fazer e ser tudo, capacidade imaginável, o homem já não sabe que é o que efetivamente é. E, no entanto, a assustadora técnica, a tecnologia, como pletora de possibilidades, é mera forma oca – como a lógica mais formalista, é incapaz de determinar o conteúdo da vida.

Fonte:
História e ontologia (Da essência da técnica)
Benedito Nunes
Universidade Federal do Pará
http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?pid=S1517-24301999000100002&script=sci_arttext

sexta-feira, 24 de maio de 2013

RECORDAR É VIVER (breve defesa da evocação)


















Adão, se existiu, só houve um. Ninguém mais pode ser o primeiro homem. Ser adâmico é não ter pretérito. Só presente e futuro. Essa é uma impossibilidade humana. Só Adão não tem passado.   Mito do ser-inaugural, antes dele nada havia a recordar. Pra nós, pobre humanos, a recordação é necessária e vital. Recordar é viver, literalmente.  Digo isso àqueles que teimam em negar o passado, como se sua sombra frondosa não estivesse sobre tudo e todos. Há coisas irremediavelmente feitas desse tecido, que, por mais que queiram alguns, sustém toda a tessitura do presente. Coisas fundantes e vitais, tais como a língua que falamos, as ciências, as artes. Quem há de supor uma língua toda ela feita de elementos do presente? Ou uma ciência que tente se erigir de um zero dos saberes? Há possibilidade da recriação da roda, do plano inclinado, do ponto e da reta?
Por isso, se todos somos feitos de passado, mesmo os que o negam, não há pecado algum em evocar, como não há mal nenhum no futurista. A evocação é a irmã que abre a porta ao vaticínio. E não é por acaso que o poeta já dizia:

“... que as crianças cantem livres sobre os muros
e ensinem sonho ao que não soube amar sem dor
e que o passado abra os presentes pro futuro,
que não dormiu e preparou o amanhecer...” (Taiguara)


Carlos Pequeno do Espírito Santo
filodóxo e beletrista do Largo do Amparo - Olinda


segunda-feira, 29 de abril de 2013

DON'ANA DO MARACATU (nova fonte oral e correção de rumos)

Sinhá Nana com balde na mão - 1970, em Tejipió

Quem conta a história de fontes orais, como é o meu caso, tem de admitir lapsos, imperfeições, permitidas a quem não tem formação acadêmica para analisar as entrevistas e as situações que as envolvem. Sendo este também o meu caso. Meu afã, no entanto, é registrar tudo o que me contam os meus parentes, todos acima dos oitenta anos, sobre os albores do século XX, principalmente, da Ilha do Leite, no Recife.


 Pois bem, nessa sexta, 26/04/2013, em conversa com minha Tia Enilda Rosa de Melo, octogenária, moradora do Pina e que também conviveu com Dona Ana, na Ilha do Leite, descobri pequenos pontos divergentes entre o seu relato e o do meu pai Elias Eurico de Melo, falecido há dois anos. Quase todos, na descrição dos cenários do primeiro parágrafo da postagem anterior. Claro que as duas versões merecem registro, sendo meu pai bem mais velho do que minha tia...

 Segundo Tia Enilda,em suas lembranças da Ilha do Leite, os proprietários das casas de alvenaria não eram os que citei, mas, os Srs. Manoel Rosa, Antonio de Souza e o meu tio-bisavô João Alexandrino de Melo. Este último, dono da maior casa da Ilha, detentor de uma situação financeira melhor, em relação aos outros moradores, pois, à época, era o Chefe da Manutenção da Companhia de Águas e Esgotos, prédio que existe até hoje, no lugar chamado Cabanga, ali, ao pé da Ponte do Pina. Diz que o Tio João permaneceu na Ilha, apesar das cheias frequentes e da ameaça da Liga Social contra o Mocambo. Além das 3 casas de alvenaria, havia ainda a casa do Manuel Teodoro, pai da Dona Ana, e a casa em que morava o meu avô Luiz de Melo, litógrafo e desenhista, sobrinho e filho de criação do Tio João. Falou-me das querelas de Dona Gertrudes, Tudinha, nossa tia-bisavó, esposa do Tio João, que era fã do clube das Pás de Carvão (hoje Pás Douradas), nascido ali, nas cercanias. O caso é que a mulher do vizinho, Antonio de Souza, (uma galega dos olhos azuis,num lugar de maioria negra) era fã do Lenhadores da Boa Vista (hoje da Mustardinha), rival nº 1 do Clube das Pás. Pelo carnaval a ilha era visitada pelas duas agremiações e as vizinhas se esmeravam na festa de acolhida, a ver quem fazia mais bonito na ocasião. Tia Gertrudes, mais abastada, sempre vencia a disputa. Contou-me também que lá surgiram famosas troças e clubes, tais como o Cachorro do Homem do Miúdo, de 1910, entre outros. Bons tempos...

 Minha tia Enilda me corrige, defensora ainda hoje das ações do Agamenon Magalhães e da sua Liga Social contra o Mocambo, dizendo que o meu avô saiu da Ilha pro Pacheco, por conta própria e bem antes das demolições. E que, da mesma forma fez o Manuel Teodoro, que levou a filha Dona Ana pra um dos morros do bairro de Cavaleiro, o que bate com certas teses de que o Estado Novo facilitaria a favelização dos morros do entorno do Recife, desde que os mocambeiros fossem viver de “Macacos pra lá”.

Tia Enilda descreve ainda o lugar, como tendo um só ligação com o centro do Recife através de uma ponte de madeira muito longa, que ligava a Ilha até a Rua dos Prazeres. Disse que de onde moravam viam apenas o extenso braço de maré, “a maré grande”, a leste, o imponente prédio do Hospital Pedro II e, ao sul, o Coque, antigo povoado de carvoeiros, que resiste até hoje.

 Sobre dona Ana, ela lembra que havia um grande pé de cajá, com muita sombra, com banco rústico, feito de um tronco. Diz que Manuel Teodoro ali se sentava e, vez por outra chamava pela filha:
“Calimita, ó Calimita, me traga um pote d'água”.

 Disse ainda que o Sr. Manoel Rosa construía viveiros de peixes e crustáceos, fazendo diques com a lama da maré baixa. E era da pescaria que muitos dos moradores sobreviviam. Contou-me que, havia um campo de futebol , que ficava no areial, por trás da Igrejinha da Saúde, distante uns 200 metros desta. Creio que esse campo ficava, mais ou menos, no lugar onde hoje está a Clínica ITORK, do afamado ortopedista Romeu Krause, irmão do ex-ministro Gustavo Krause.
E, por falar no ITORK, anos atrás, estando minha esposa em tratamento nessa clínica, lá conheci um senhor bem apessoado, negro elegante, longilíneo, carapinha branca. Chamava-se Nivaldo, 78 anos, e era o porteiro do ITORK. Todos os dias eu estacionava o carro e enquanto esperava a esposa em tratamento, ficava conversando com aquele senhor bom de prosa. Certo dia eu disse que meu pai havia morado por ali, há muitas décadas. E, qual não foi o meu espanto, quando ele disse que foi menino na Ilha. E foi logo confirmando o nome dos meus parentes todos. Lembrou do Campo do Bahia, de um primo meu distante que jogava bem o futebol, o Américo, por alcunha Memé. Lembrou de meu pai, de vovô Luiz. E eu então perguntei de quem ele era filho. E ele disse: do Manoel Rosa. Confirmando esse ponto da história que me passaram os meus parentes. Falou-me ainda, que do outro lado morava um carteiro, ali, dizia com os beiços, ali onde está aquele grande hospital. Ali era a casa do carteiro...
Infelizmente, Seu Nivaldo, já octogenário, filho caçula do Manoel Rosa, faleceu há pouco mais de um ano.

 Bem, são essas as correções e as novas informações que queria registrar da breve história de Dona Ana, que se mistura com a do meu povo, herdeiro que sou da Mucambópolis (rsrs), nome dado pela pesquisadora Zélia Gominho, ao Recife invisível, dos habitantes das margens dos Rios Capibaribe, Jiquiá, Tejipió e Jordão, expulsos pela política higienista do Estado Novo, e que foram fundar os grandes aglomerados dos morros da zona oeste da cidade.
Viveiro de Peixes - Percy Lau

P. S.:
Meu pai, tricolor de quatro costados, dizia-me que, ali perto, na Boa Vista, foi fundado o Santa Cruz, (quem sabe uma dissidência do Bahia, da ilha do Leite?). O Santinha, clube inicialmente alvinegro, é o xodó de boa parte da Família Melo. Eu, respeitosamente, sou uma ovelha negra, ou rubro-negra, já que sou torcedor do glorioso clube de outra Ilha, a do Retiro, ali pertinho. Clube mais antigo, pois é de 1905, e cujo fundador trouxe o esporte bretão para essa terra maurícia, para, bem depois, ensinar aos outros. O Náutico só aderiu ao futebol em 1909. O Santa só surgiria em 1914. Perdoem-me, os Melo, da Ilha do Leite, mas sou do Sport Club do Recife!