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terça-feira, 26 de junho de 2012

Internet e Pós-Capitalismo














A convergência digital, a blogosfera e a comunicação compartilhada não ameaçam apenas a oligarquia da mídia corporativa. Também requerem um novo projeto para democratizar o jornalismo, e outros mecanismos para remunerar os produtores culturais .

Antonio Martins





1.Nos últimos anos, graças a certas ferramentas tecnológicas, mas especialmente a algumas mudanças de paradigma, os antigos conceitos de liberdade de informação e propriedade intelectual estão sendo superados. Em seu lugar, surgem idéias como comunicação compartilhada, inteligência coletiva, fim da passividade do receptor, direito à intercomunicação. Essas mudanças têm enormes repercussões em nossa vida social, econômica, política e simbólica. Estão, por sua vez, relacionadas a sinais de que uma outra lógica de organização das sociedades – capaz de superar a que está baseada no lucro e na competição – é possível e necessária.


2.Um dos problemas-chaves a resolver é, precisamente, a produção de símbolos — arte, comunicação, literatura — num mundo em que a vida continua sendo comprada e vendida como mercadoria. Em outras palavras: se queremos que as obras culturais circulem e sejam apropriadas e recriadas por todos; se queremos fazer de cada ser humano um criador cultural, como remunerar o trabalho do artista? Como permitir que, sendo livre seu trabalho, possa ele alimentar-se, vestir-se, habitar, viajar, equipar-se – em suma, satisfazer suas múltiplas necessidades e desejos.


3.Um dos pontos essenciais para encontrar uma resposta foi oferecido em conferência pronunciada no ano passado, durante o Fórum Cultural Mundial, por Gilberto Gil. Vivemos num mundo em transição e em transe. São tão profundos quanto os que marcaram a passagem do mundo feudal à modernidade e geraram, entre outros fenômenos, o Renascimento europeu.


4. Alguns dos mecanismos sociais que marcaram a modernidade e representaram, em sua época, liberdade, transformaram-se em prisões. O ser humano medieval recuperou a moeda e ampliou os mercados para se libertar das relações obrigatórias e limitadas que o prendiam à terra, ao senhor, aos afazeres que haviam sido repetidos por seus ancentrais desde muitas gerações. A cidade e o mercado eram os espaços em que cada um podia oferecer livremente seu trabalho – ou seja, encontrar uma alternativa à obrigação de permanecer no feudo, trocando favores pessoais com o senhor, sempre subordinado, sempre sem liberdade de escolher seu próprio destino pessoal. A moeda era o que permitia a tal ser humano “livre” ganhar o mundo e comprar sua vida sem o limite dos vínculos de favor. Quando os mercados, que o ser humano desenvolveu para se livrar do mundo feudal, passam a dominar seu criador


5. Ocorre que o mercado é, por natureza, um espaço marcado pela competição, pela desigualdade e por um tipo de alienação que leva à hipervalorização do produto e apagamento do produtor. Se produzo laranjas, ou fios de cobre mais baratos, serei o vencedor. O mercado ignora se meu vizinho é obrigado a lavrar terras mais áridas, ou se as relações sociais na fábrica em que trabalha são mais humanas. Algo muito semelhante se dava no mundo da indústria cultural, onde os padrões de belo, bom e agradável eram definidos por um sistema onde alguns grandes operadores tinham enorme poder de definir, por exemplo, que estilo de produção cinematográfica, ou que enfoque de cobertura midiática, tinham o poder de encantar ou convencer.


6.No terreno da produção simbólica, o período que vivemos é marcado por duas tendências contraditórias. Alguns fatores tendem a padronizar os produtos de forma cada vez mais intensa . Garantir a circulação de um jornal diário em papel, na escala e nos padrões de “qualidade” requeridos pelo mercado, exige investimentos de dezenas de milhões de reais. As produções cinematográficas tradicionais consomem uma parcela cada vez maior de seu orçamento com publicidade.


7.No entanto, dois fatores combinados têm servido como uma contra-tendência formidável, que questiona a própria idéia de mercantilização da produção simbólica. A primeira é tecnológica: a internet começou, a vários anos, a erodir a receita da indústria cultural. Primeiro, veio o compartilhamento de música, sem contrapartida financeira. Depois – e ainda mais interessante e transformador – surgiram as possibilidades não apenas de trocar o que já está pronto, mas de criar em conjunto, a partir de múltiplos pontos do planeta.


8. Estes enormes passos tecnológicos teriam pouco sentido e efeito se não coincidissem com um profundo mal-estar em relação aos paradigmas que marcaram a modernidade – em especial a mercantilização do mundo. Tem crescido – o Fórum Social Mundial é expressão disso – a consciência de que o mercado, embora surgisse como uma ferramenta de libertação do ser humano, se não cotrolado, domina seu criador. Já não somos o que somos, mas o que compramos. O mais interessante é que surgem, em paralelo, alternativas. Afirma-se a lógica dos direitos. Debate-se, nos Fóruns Sociais, a idéia de que certos bens e serviços, necessários para assegurar vida digna, devem ser oferecidos a todos os seres humanos do planeta, independentemente de sua capacidade de pagar por eles. Acesso à terra, água potável, eletricidade, renda básica da cidadania, saúde de qualidade, educação, internet, bens culturais. A lista vai se refinando, felizmente, e é possível vislumbrar o dia em que essa lógica se desdobrará no direito a viajar para ter contato com novas culturas, ou no direito à psicanálise. Tecnologia é fator secundário. Conhecimento livre é movido pela busca de nova lógica social e desencanto com oligopólio das narrativas


9. É precisamente nesse contexto que surgem o direito à intercomunicação, a inteligência coletiva, o fim da passividade do receptor, o conhecimento livre. Graças à tecnologia — mais especialmente à busca de um mundo organizado segundo uma nova lógica social —, está se esfacelando um dos grandes instrumentos de dominação da era capitalista: o oligopólio das narrativas e discursos. Embora partidária do neoliberalismo, a revista Economist apontou, num estudo publicado em meados de 2006, que está se encerrando a era da comunicação de massa. Iniciada com a invenção dos tipos móveis, por Gutemberg, ela foi marcada pela produção de um volume cada vez mais maciço de bens simbólicos, por um número cada vez mais reduzidos de emissores. Em seu lugar, está surgindo a era da comunicação pessoal e participativa. Sua marca será o poder que uma parcela cada vez maior da humanidade terá para se livrar da condição de mero consumidor, e tornar-se, também, produtor de bens simbólicos. As transformações serão tão profundas que Economist chega a prever o fim do jornal diário impresso, ainda na primeira metade do século atual.


10. A mudança de paradigma, extremamente positiva, cria dois problemas complexos. O primeiro é a necessidade de recriar espaços públicos de debate, para evitar que a multiplicação dos produtores de conteúdo gere apenas um caos multifônico. O fato de cada ser humano ser um produtor de narrativas e discursos não deve significar que cada um se satisfaça consigo mesmo e dispense o diálogo. Nesse caso, estaríamos diante de uma nova forma de incomunicação e alienação. Para evitar o risco, é importante criar outros nós na grande rede, certos lugares onde os produtores de símbolos se encontram, se reconhecem e estabelecem trocas. Isso não se faz de forma piramidal, nem com base em relações mercantis, nem sob a batuta de um editor todo-poderoso – mas a partir de recortes e pontos de vista compartilhados por uma comunidade. No Brasil, um exemplo desbravador é o site de jornalismo cultural Overmundo. Centenas de leitores, muitos dos quais mantêm seus próprios blogs, ou produzem vídeo ou áudio – ou seja, já são produtores de conteúdo cultural – sentem-se atraídos para contribuir também para o Overmundo. Por que surgiu um nó, onde é possível estabelecer diálogos mais amplos. Lançado em outubro, o Caderno Brasil de Le Monde Diplomatique persegue um objetivo semelhante, no terreno do pensamento crítico e da busca de alternativas políticas. Num primeiro momento, ela reunirá colaboradores já reconhecidos por sua capacidade de análise, ou por atuar em iniciativas transformadoras e refletir sobre elas. Numa segunda etapa, como em Overmundo, a participação estará aberta a qualquer leitor que se tenha pontos de vista relevantes a expressar. Uma possibilidade radical: desmercantilizar o trabalho humano, desvinculando o direito à vida digna de um emprego assalariado


11. O segundo grande desafio é o da remuneração e sobrevivência dos novos produtores de símbolos. De certa maneira, a liberdade de conhecimento e de produção cultural é profundamente utópica, no melhor sentido do termo: o de antecipar um futuro possível. Ela aponta para a possibilidade da desmercantilização mais radical: a do próprio trabalho humano. Produzir comunicação, cultura ou arte não deve ser algo que dependa de remuneração, mas um prazer e algo inerente à própria condição humana. Outras atividades, cada vez mais numerosas, deveriam ter o mesmo status: cuidar da natureza, educar as crianças, mostrar nossa cidade a visitantes que não a conhecem. No caso de muitas outras atividades, o desenvolvimento da tecnologia poderia ser visto como um alívio, não como um drama – desde que houvesse outras relações sociais. Se novas máquinas permitem fabricar computadores empregando muito menos operários, ou se é possível automatizar a coleta de lixo, isso não deveria ser visto como ameaça de desemprego, mas como redução do tempo de trabalho, eliminação das tarefas humanas mais penosas e desagradáveis. A condição é nos dispormos a imaginar a ultrapassagem da sociedade-mercadoria e do trabalho-mercadoria. Uma decisão-chave é reconhecer que, na época em que vivemos, a garantia de uma vida digna não pode mais estar associada a um emprego remunerado. Por isso, é tão decisivo o debate sobre a criação de uma Renda Cidadã internacional – e mesmo medidas muito tímidas nesta direção, como o Bolsa-família brasileiro merecem todo apoio.


12. Mas como viveremos nós, enquanto continuarmos imersos nas relações capitalistas? Em primeiro lugar, é preciso afastar a idéia de que uma nova sociedade pode ser construída num único ato, a partir do qual as relações sociais transformam-se por encanto. Durante muito tempo, teremos de ampliar o espaço das relações de solidariedade e compartilhamento, estando, contudo, obrigados a aceitar as relações de mercado, a vender nossa capacidade de produzir bens simbólicos. Uma grande arte haverá em equilibrar esses dois aspectos de nossa vida social.


13. Isso exige, ao mesmo tempo, imaginar e testar desde agora novas relações. Se o trabalho necessário para produzir Overmundo é remunerado graças ao apoio de uma empresa pública, mediante patrocínio, devemos ter a ousadia de debater com a sociedade que se trata de uma relação muito mais avançada que vender o conteúdo do site aos que podem pagá-lo.


14. No Brasil, uma importantíssima janela de oportunidades em favor da comunicação compartilhada e de novos mecanismos de remuneração dos produtores culturais está se abrindo, há vários meses. Certas atitudes políticas adotadas quase em bloco pelo oligopólio que controla a mídia provocaram um grave desgaste de sua legitimidade, principalmente entre a parcela mais esclarecida e politizada de sua audiência. Surgiram, em paralelo, sinais de articulação embrionária entre publicações e produtores de conteúdo que atuam na blogosfera, o que poderia ser, no futuro, uma rede – horizontal e não-hierárquica – de novas iniciativas de comunicação independente. Tiro pela culatra: o oligopólio da mídia tenta manipular duas vezes a opinião pública, e sai com credibilidade arranhada


15. Em pelo menos dois episódios, a mídia comercial tentou manipular acontecimentos importantes, servindo-se do controle que julgava ter sobre a opinião pública para produzir fatos políticos que interessavam a si própria e às correntes políticas com quem se identifica. Às vésperas do primeiro turno das eleições presidenciais de 2006, ela envolveu-se com a campanha do candidato conservador, e com setores da Polícia Federal, para produzir ilegalmente fotos, que foram apresentadas como comprometedoras de outro candidato – o então presidente da República, que acabou se reelegendo. Mais tarde, no primeiro semestre de 2007, o oligopólio tentou tirar proveito de uma tragédia – um desastre aéreo com 200 mortes – para fabricar apressadamente uma suposta causa (problemas na pista do aeroporto de Congonhas), responsabilizar o governo federal e vitaminar um movimento de oposição de direita liderado por grandes empresários, auto-denominado “Cansei”.


16. Em ocasiões anteriores, campanhas promovidas em bloco pelo oligopólio foram capazes de sensibilizar a sociedade e produzir os efeitos desejados.

 [1] Para ficar apenas em dois exemplos: por meio de campanhas semelhantes, o oligopólio obteve, em 2002, a inviabilização da candidatura presidencial de Roseana Sarney, então líder nas pesquisas de opinião pública; e conseguiu abortar, em 2004, a criação do Conselho Nacional de Jornalismo e da Agência Nacional de Cinema e Audivisual

[2] Vale a pena ler, em especial, a reportagem em que Raimundo Pereira (em Carta Capital) descreve a construção, pela mídia e pela candidatura de Geraldo Alckmin, de uma versão que comprometia Lula, no chamado “escândalo da compra do dossiê”.


FONTE DO TEXTO:
OUTRASPALAVRAS http://www.outraspalavras.net/muito-alem-de-gutenberg/

FONTE DA IMAGEM:
Prossumidores http://rhdevarejo.blogspot.com.br/2011/07/rh-o-prosumer-chegou-sua-empresa.html

quarta-feira, 6 de abril de 2011

CINZAS DO ALCORÃO E DOS SONHOS...















A vida não se acaba
apenas quando o esquife é engavetado
ou quando a última pá de terra é lançada...

Vinha pensando por esses dias nos sonhos
que eu acalentava aos 17 anos.
Eu acabara de ler a série engajada do Jorge Amado.
Fiquei vidrado no Terras do Sem Fim,
Fiquei fascinado pelo Seara Vermelha!
E lembro que disse ao primo Zeca,
com a típica presunção dos adolescentes:
Eu sou capaz de escrever algo assim,
tendo como cenário o Recife.
Era a idéia de meu interminável romance Pina,
que ainda rola por aí,
com o esquisito nome de Bóstrix N’água.
Era um tempo de mudanças.
De esperança.
Danei-me então a compor canções ao violão.
Claro que ao modo do Quinteto Violado.
Eu tinha os meus modelos.
E cometi dezenas de poemas de versos livres,
como os que encontrei no Pessoa, no Drummond... no Jorge de Lima...
Mas a vida não era tão bela assim.
Um dia, em uma profunda crise existencial
(que se chamava “grilos”, naquele tempo ),
portanto, “grilado” com a vida,
eu queimei todos os meus manuscritos,
exceção de um que havia sido emprestado a um amigo,
e, assim, salvou-se do incendiário.

Mas, como eu vinha dizendo,
a vida se acaba bem antes do esquife enfeitado por flores.
A vida tem fim quando um homem deixa de sonhar.
Quando não mais acredita em seus projetos de futuro.
Quando desiste das lutas políticas,
das lutas amorosas,
das lutas, enfim.
Eu ando morrendo por esses dias.
Morrendo aos poucos.
A cada dia morre um sonho e eu com ele.

(Ainda me resta essa blogosfera, essas publicações de diletante,
essa brincadeira virtual.
Esse restinho de sonho, em doses homeopáticas...)

Mas não sobreviverei a esse tempo.

Eu, que aos dezessete anos aprendi a cantar o PACEM IN TERRIS,
canção de protesto do meu amigo Maurício Tavares de Aquino, o Babá,
grande compositor de baladas cheias de fé na humanidade,

Eu, que acreditava que a fraternidade era possível,
e que a civilização rumava para a paz universal...rsrs

Não sobreviverei a esse tempo.

Como posso sonhar com o futuro,
vendo as coisas que vejo nas ruas daqui e de alhures.
Aqui os mais jovens morrem de overdose de crack
ou de suas dívidas, cobradas sempre à bala.
Eu os vejo da minha janela.
São os amigos de infância de meus filhos.
Uns são os algozes, os que são funcionários do traficante,
outros, as vítimas, os que sucumbiram às drogas
e não tem como pagar o que consomem.

Eu queria dizer-lhes algo.
Eu queria lhes falar que a vida é possível.
Que tudo irá mudar.
Começo a ensaiar um discurso pragmático, pra lhes dizer
que seria melhor usar uma droga lícita, ter outros prazeres, namorar
(os drogadinhos não têm tempo, nem forças para uma vida sexual),
quem sabe uma casa, um carro, ter saúde e alegria de viver.

Eu tento sonhar e estar vivo,
eu preciso acreditar que é possível mudar esse estado de coisas.

Então, ligo a televisão, e o que vejo?
Um líder religioso, na nação mais poderosa do mundo ocidental,
pasmem!,
a queimar o livro sagrado dos maometanos.
Um seguidor do homem mais amoroso que já pisou neste planeta,
a queimar um livro sagrado de outra religião!
Pior: a dirigir anátemas contra aqueles que não seguem a Bíblia dos cristãos.
Esse pastor é cidadão da nação
que tem os maiores centros de ciência do mundo,
as melhores escolas, a melhor qualidade de vida,
o melhor do melhor.
A nação que deveria ser modelo de civilização.
Mas, infelizmente, ele é o modelo, sim,
de uma civilização decadente e agonizante.
De uma civilização de surdos e cegos,
no pior sentido dado a essas palavras.
Surdos que não querem ouvir e cegos que odeiam ver.
A não ser que estejam diante de um espelho.

E agora:
o que vou dizer aos drogadinhos da esquina?
Que mundo eu vou lhes mostrar
para que eles se interessem em ficar sóbrios.
O pastor protestante queima o Corão,
como um dia o Papa queimou bíblias
traduzidas do latim para outras línguas.

E, de repente, surge na TV a imagem do ataque
aos funcionários da ONU, no Afeganistão.
Já não se destruirão torres.
Ambos os lados hão de matar os anônimos servidores da paz.

O desamor é via de mão dupla.
E o desamor fundamentado na religião,
na intolerância religiosa,
é uma imensa e louca rodovia
em que motoristas fanáticos pilotam seus carros na contra-mão,
em altíssima velocidade.

Eu quero sonhar, apesar desse mundo de loucos.
Eu quero sonhar.
Eu quero acreditar em um mundo melhor.
Mas os alicerces dessa civilização são grandes equívocos:
São simulacros de fé, em vez de fé.
São aparência de amor, em vez de amor.
São dessonhos.
São desesperanças.
São um milenar e arraigado desamor.
A civilização dos gregos, dos romanos, dos egípcios, dos persas,
toda essa história de guerras e de desamor
nos mostram as suas ruínas.
Agora há pouco, a URSS... fragmentou-se: sonho frustrado universal.
E em breve, USA e CHINA... dois bastiões do desamor, gerarão mais uma crise perversa e necrófila.

E eu devo admitir para os drogadinhos da esquina,
que foi essa civilização sem amor
que lhes ofertou o crack,
ao inventar a cocaína.
Depois das duas drogas, resta-lhes a ruína.

Por isso já não tenho mais como lhes falar de sonho.
Tragam-me flores, coroas de flores...
Perdoem-me, os otimistas,
mas meu sonho acabou.
No meu epitáfio quero que escrevam:
"Sr. Fulano de Tal.
Tentou inutilmente sonhar."



Eurico,
perdoem-me os senões e o desabafo.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Miguel Nicolelis: por uma Ciência Tropical


















Ao pensar o futuro da ciência no Brasil, boa parte dos pesquisadores brasileiros volta os olhos, automaticamente, sem pestanejar, para Estados Unidos, Europa e Ásia.

Miguel Nicolelis, um dos mais respeitados neurocientistas do mundo, não.

Formado em Medicina pela USP, ele está há 20 anos nos Estados Unidos, onde é professor e pesquisador na Universidade Duke. Já ganhou 38 prêmios internacionais por suas pesquisas. Dois deles, em 2010, dos Institutos Nacionais de Saúde (NIH) dos Estados Unidos.

Desde 2003 vive na “ponte aérea” Durham, Carolina do Norte (campus da Duke University) – Macaíba, Rio Grande do Norte, onde implantou o Instituto Internacional de Neurociências de Natal Edmond e Lilly Safra.

Em 11 de outubro, em entrevista a Luiz Carlos Azenha, Nicolelis afirmou ser desejável o desenvolvimento de uma “ciência tropical”. De lá para cá amadureu a ideia. Colocou “no papel” o que tem pensado sobre o tema nesses anos.
O resultado é o manifesto em defesa de um novo paradigma científico, que o Viomundo publica em primeira mão (abaixo da entrevista). Chama-se Manifesto da Ciência Tropical: Uso democrático da ciência para transformação social e econômica do Brasil.
“Optei por chamar o novo modelo de Ciência Tropical não por razões geográficas ou provincianas, mas porque é necessário caracterizarmos desde já o famoso onde, como e porque que permitiram a sua gestão”, explica o professor Miguel Nicolelis. “Afinal, esse novo modelo só teve condições de dar os primeiros passos e realizar as primeiras experiências nesses trópicos, que hoje oferecem à humanidade a mais fascinante esperança de preservar a própria espécie e o planeta.”
“É essa Ciência Tropical que vai possibilitar à humanidade manter e ampliar suas fontes de energia limpa, produzir alimentos e água potável necessários para bilhões de seres humanos”, traduz Nicolelis. “Também cultivar biomas naturais, de onde extrairemos novos medicamentos e curas para inúmeras doenças, preservar os serviços climáticos e ecológicos que manterão em cheque o aquecimento global e identificar novos agentes infecciosos capazes de destruir, numa única epidemia, toda a raça humana.”
De saída, esse novo modelo implica libertar a ciência brasileira da subserviência acrítica aos modelos importados e massificar a educação científica, observa Nicolelis nesta parte da entrevista que me concedeu. Ouçam.

É indispensável também investir pesado em ciência e tecnologia. “O investimento maciço em novas formas de explorar petróleo em alta profundidade foi que capacitou a Petrobras a ser o que ela é hoje”, exemplifica Nicolelis. “E isso é apenas a ponta do iceberg. A Ciência Tropical vai ditar a agenda mundial neste século XXI.”
Aqui, Nicolelis sugere como e por quê.

“Ninguém constrói uma nação com 10 mil pessoas de um bairro da cidade de São Paulo. Você precisa de todo o país”, assegura Nicolelis. “É esse casamento da saúde pública, particularmente a da mulher e a da primeira infância, com o projeto educacional brasileiro, público, que precisa ser feito”.

Para implementar essa revolução educacional, Nicolelis defende que o ideal seria unir a filosofia do educador Paulo Freire (1921-1997) com a de Alberto Santos-Dumont (1873-1932), inventor do voo controlado. Também que, do ponto de vista científico, os nossos parceiros estratégicos não são mais os Estados Unidos, Europa ou Ásia, mas a África e a América Latina. “Pode parecer paradoxal, mas é a pura verdade”, sustenta na última parte da nossa entrevista.

****

Manifesto da Ciência Tropical: um novo paradigma para o uso democrático da ciência como agente efetivo de transformação social e econômica no Brasil
por Miguel Nicolelis

É hora da ciência brasileira assumir definitivamente um compromisso mais central perante toda a sociedade e oferecer o seu poder criativo e capacidade de inovação para erradicar a miséria, revolucionar a educação e construir uma sociedade justa e verdadeiramente inclusiva.

É hora de agarrar com todas as forças a oportunidade de contribuir para a construção da nação que sonhamos um dia ter, mas que por muitas décadas pareceu escapar pelos vãos dos nossos dedos.

É hora de aproveitar este momento histórico e transformar o Brasil, por meio da prática cotidiana do sonho, da democracia e da criação científica, num exemplo de nação e sociedade, capaz de prover a felicidade de todos os seus cidadãos e contribuir para o futuro da humanidade.

No intuito de contribuir para o início desse processo de libertação da energia potencial de criação e inovação acumulada há séculos no capital humano do genoma brasileiro, eu gostaria de propor 15 metas centrais para a capacitação do Programa Brasileiro de Ciência Tropical.
A implementação delas nos permitirá acelerar exponencialmente o processo de inclusão social e crescimento econômico, que culminará, na próxima década, com o banimento da miséria, a maior revolução educacional e ambiental da nossa história e a decolagem irrevogável e irrestrita da indústria brasileira do conhecimento.
Estas 15 metas visam a desencadear a massificação e a democratização dos meios e mecanismos de geração, disseminação, consumo e comercialização de conhecimento de ponta por todo o Brasil.

1) Massificação da educação científica infanto-juvenil por todo o território nacional

O objetivo é proporcionar a 1 milhão de crianças, nos próximos 4 anos, acesso a um programa de educação científica pública, protagonista e cidadã de alto nível. Esse programa utilizará o método científico como ferramenta pedagógica essencial, combinando a filosofia de vida de dois grandes brasileiros: Paulo Freire e Alberto Santos-Dumont.
Ao unir a educação como forma de alcançar a cidadania plena com a visão de que ciência se aprende e se faz “pondo a mão na massa”, sugiro a criação do Programa Educação para Toda a Vida, do qual faria parte o Programa Nacional de Educação Científica Alberto Santos -Dumont (veja abaixo). A porta de entrada se daria nos serviços de pré-natal para as mães dos futuros alunos do programa. Após o nascimento, essas crianças seriam atendidas no berçário e na creche, depois na escola de educação científica que os serviria dos 4-17 anos, para que esses brasileiros e brasileiras possam desenvolver toda a sua potencialidade intelectual e criativa nas duas próximas décadas de suas vidas.
O programa de educação científica seria implementado no turno oposto ao da escola pública regular, criando um regime de educação em tempo integral para crianças de 4-17 anos, por meio de parceria do governo federal com governos estaduais e municipais. Cada unidade da rede de universidades federais poderia ser responsável pela gestão de um núcleo do Programa Educação para Toda Vida, voltado para a população do entorno de cada campus.
O governo federal poderia ainda incentivar a participação da iniciativa privada, oferecendo estímulos fiscais e tributários para as empresas que estabelecessem unidades de educação científica infanto-juvenil, ao longo do território nacional. Por exemplo, o novo centro de pesquisas da Petrobras poderia criar uma das maiores unidades do Educação para Toda Vida.

2) Criação de centros nacionais de formação de professores de Ciência

A implementação do Programa Educação para Toda Vida geraria uma demanda inédita para professores especializados no ensino de ciência e tecnologia. Para supri-la, o governo federal poderia estabelecer o Programa Nacional de Educação Científica Alberto Santos Dumont, que seria o responsável pela gestão dos centros nacionais de formação de professores de ciências, espalhados por todo território nacional. As universidades federais, os Institutos Federais de Tecnologia (antigos CEFETs) e uma futura cadeia de Institutos Brasileiros de Tecnologia (veja abaixo) poderiam estabelecer programas de formação de professores de ciências e tecnologia em todo o país.
Esses novos programas capacitariam uma nova geração de professores a ensinar conceitos fundamentais da ciência, através de aulas práticas em laboratórios especializados, tecnologia da informação e utilização de métodos, processos e novas ferramentas para investigação científica. Os alunos que se graduassem no programa Educação para Toda Vida teriam capacitação, antes mesmo do ingresso na universidade, para se integrar ao trabalho de laboratórios de pesquisa profissionais, tanto públicos como privados, através do Programa Nacional de Iniciação Científica e do Bolsa Ciência (veja abaixo).

3) Criação da carreira de pesquisador científico em tempo integral nas universidades federais

Seria em paralelo à tradicional carreira de docente. Ela nos permitiria recrutar uma nova geração de cientistas que se dedicaria exclusivamente à pesquisa científica, com carga horária de aulas correspondente a 10% do seu esforço total. Sem essa mudança não há como esperar que pesquisadores das universidades federais possam dar o salto científico qualitativo necessário para o desenvolvimento da ciência de ponta do país.

4) Criação de 16 Institutos Brasileiros de Tecnologia espalhados pelo país

Eles serviriam para suprir a demanda de engenheiros, tecnólogos e cientistas de alto nível e promover a inclusão social por meio do desenvolvimento da indústria brasileira do conhecimento. Atualmente o Brasil apresenta um déficit imenso desses profissionais.
Para sanar essa situação, o Brasil poderia reproduzir o modelo criado pela Índia, que, desde a década de 1950, construiu uma das melhores redes de formação de engenheiros e cientistas do mundo, constituída pela cadeia de Institutos Indianos de Tecnologia.
Para tanto, o governo federal deveria criar nos próximos oito anos uma rede de 16 Institutos Brasileiros de Tecnologia (IBT) e espalhá-los em bolsões de miséria do território nacional, especialmente nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Cada IBT poderia admitir até 5.000 alunos por ano.

5) Criação de 16 Cidades da Ciência

Localizadas nas regiões com baixo índice de desenvolvimento humano, como o Vale do Ribeira, Jequitinhonha, interior do Nordeste, Amazônia, as Cidades da Ciência ficariam no entorno dos novos IBTs.
As Cidades da Ciência seriam, na prática, o componente final da nova cadeia de produção do conhecimento de ponta no Brasil. Acopladas aos novos IBTs e à rede de universidades federais, criariam o ambiente necessário para a transformação do conhecimento de ponta, gerado por cientistas brasileiros, em tecnologias e produtos de alto valor agregado que dariam sustentação à indústria brasileira do conhecimento.
Nas Cidades da Ciência seriam criadas e estabelecidas as grandes empresas do conhecimento nacional, onde o potencial científico do povo brasileiro poderia se transformar em novas fontes de riqueza a serem aplicadas na gênese de um sistema nacional autossustentável. Tal iniciativa permitiria a inserção do Brasil na era da economia do conhecimento que dominará o século XXI.

6) Criação de um arco contínuo de Unidades de Conservação e Pesquisa da Biosfera da Amazônia

Esse verdadeiro cinturão de defesa, formado por um arco contínuo de Unidades de Conservação e Pesquisa da Biosfera da Amazônia, seria disposto em paralelo ao chamado “Arco de Fogo”, formado em decorrência do agronegócio predatório e da indústria madeireira ilegal, responsáveis pelo desmatamento da região. Essa iniciativa visa a fincar uma linha de defesa permanente contra o avanço do desmatamento ilegal, modificando a estratégia das unidades de conservação a fim de colocá-las a serviço de um Programa Nacional de Mapeamento dos Biomas Brasileiros.
Uma série de unidades de conservação poderia ser transformada em unidades híbridas. Assim, além da conservação, poderiam incluir grandes projetos de pesquisa que possibilitem ao Brasil mapear a riqueza e a magnitude dos serviços ecológicos e climáticos encontrados nos diversos biomas nacionais.
Para incentivar a participação de populações autóctones nesse esforço, o governo federal poderia criar o programa Bolsa Ciência Cidadã. Homens, mulheres e adolescentes, que vivem na floresta amazônica e conhecem seus segredos melhor do que qualquer professor doutor, receberiam uma bolsa, similar ao bolsa família, para integrarem as equipes de pesquisadores e responsáveis pela implementação das leis ambientais na região. Esse exército de cidadãos, devotado à investigação científica e à proteção da Amazônia, mostraria ao mundo o quão determinado o Brasil está em preservar uma das maiores maravilhas biológicas do planeta.
Evidentemente tal iniciativa poderia ser replicada em outras áreas críticas, também ameaçadas pela indústria predatória, como o Pantanal, a caatinga, o cerrado, a Mata Atlântica e os Pampas.

7) Criação de oito “Cidades Marítimas” ao longo da costa brasileira

A descoberta do pré-sal demonstra claramente que uma das maiores fontes potenciais de riqueza futura da sociedade brasileira reside no vasto e diverso bioma marítimo da nossa costa.
Apesar disso, os esforços nacionais para estudo científico desse vasto ambiente são muito incipientes. Aqui também o Brasil pode inovar de forma revolucionária. Em parceria com a Petrobras, o governo federal poderia estabelecer, no limite das 350 milhas marinhas, oito plataformas voltadas para a pesquisa oceanográfica e climática, visando ao mapeamento das riquezas no mar tropical brasileiro.
Essas verdadeiras “Cidades Marítimas”, dispostas a cada mil quilômetros da costa brasileira, seriam interligadas por serviço de transporte marítimo e aéreo (helicópteros) e se valeriam de incentivos à renascente indústria naval brasileira, para o desenvolvimento, por exemplo, de veículos de exploração a grandes profundidades.
Cada “Cidade Marítima” seria autossuficiente, contando com laboratórios, equipamentos e equipe própria de pesquisadores. Tais edificações serviriam também como postos mais avançados de observação dos limites marítimos do Brasil. Com o crescente desenvolvimento da exploração do pré-sal, essa rede de “Cidades Marítimas” poderia assumir papel fundamental na defesa da nossa soberania marítima dentro das águas territoriais.

8) Retomada e Expansão do Programa Espacial Brasileiro

Embora subestimado pela sociedade e a mídia brasileiras, o fortalecimento do programa espacial brasileiro oferece outro exemplo emblemático de como o futuro do desenvolvimento científico no Brasil é questão de soberania nacional.
Dos países pertencentes ao BRIC, o Brasil é o que possui o mais tímido e subdesenvolvido programa espacial. Apesar da sua situação geográfica altamente favorável, a Base de Alcântara não tem correspondido às altas expectativas geradas com a sua construção.
Essa situação é inaceitável, uma vez que, a longo prazo, pode levar o Brasil a uma dependência irreversível no que tange a novas tecnologias e novas formas de comunicação, colocando a nossa soberania em risco. Dessa forma, urge reativar os investimentos nessa área vital, definir novas e ambiciosas metas para o programa espacial brasileiro e esclarecer o papel da sociedade civil na operação dos programas da Base de Alcântara, cujo controle deveria estar nas mãos de uma equipe civil de pesquisadores e não das forças armadas.

9) Criação de um Programa Nacional de Iniciação Científica

Com a criação do Programa Educação para Toda Vida, seria necessário implementar novas ferramentas para que os adolescentes egressos desses programas pudessem dar vazão a seus anseios de criação, invenção e inovação através da continuidade do processo de educação científica, mesmo antes do ingresso na universidade e depois dele.
Na realidade, é extremamente factível que grande número desses jovens possa começar a contribuir efetivamente para o processo de geração de conhecimento de ponta antes do ingresso na universidade.
O governo federal poderia criar um Programa Nacional de Iniciação Científica que leve ao estabelecimento de 1 milhão de Bolsas Ciência. Uma experiência preliminar desse programa já existe no CNPQ, através do recém-criado programa dos Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia. Bastaria ampliá-lo e remover certas amarras burocráticas que dificultam a sua implementação neste momento. Esse programa poderia também ser usado pelo governo federal para eliminar uma porcentagem significativa (30%) da evasão do ensino médio, decorrente da necessidade dos alunos em contribuir para a renda familiar.
Jovens de talento científico reconhecido deveriam também ter a opção de seguir carreira de inventor ou pesquisador sem necessitar de doutorado ou outro curso de pós-graduação. Tal alternativa contribuiria decisivamente para a diminuição do período de treinamento necessário para que talentos científicos pudessem participar efetivamente do desenvolvimento científico do Brasil.

10) Investimento de 4-5% do PIB em ações de ciência e tecnologia na próxima década

Tendo proposto novas ações, é fundamental que essas sejam devidamente financiadas. Para tanto e, ainda, para assegurar a ascensão da ciência brasileira aos patamares de excelência dos países líderes mundiais, o governo brasileiro teria de tomar a decisão estratégica de destinar, nas próximas décadas, algo em torno de 4-5% do PIB nacional à ciência e tecnologia.
Em vários países, como os EUA, essa conta é dividida em partes iguais entre o poder público e privado. No Brasil, todavia, não existem condições para que isso ocorra de imediato. Dessa forma, não restaria outra alternativa ao governo federal senão assumir a responsabilidade desse investimento estratégico, usando novas fontes de receita, como a gerada pela exploração do pré-sal.

11) Reorganização das agências federais de fomento à pesquisa

Reformulação de normas de procedimento e processo para agilizar a distribuição eficiente de recursos ao pesquisador e empreendedor científico, bem como criar um novo modelo de gestão e prestação de contas.
A ciência e o cientista brasileiro não podem mais ser regidos pelas mesmas normas de 30-40 anos atrás, utilizadas na prestação de contas de recursos públicos para construção de rodovias e hidrelétricas.
Urge, portanto, reformular completamente todos os protocolos de cooperação do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) com outros ministérios estratégicos para execução de projetos multiministeriais.
Na lista de cooperação estratégica do MCT, incluem-se os ministérios da Educação, Saúde, Meio Ambiente, Minas e Energia, Indústria e Comércio, Agricultura, Defesa e Relações Exteriores. Normas comuns de operação dos departamentos jurídicos e dos processos de prestação de contas devem ser produzidas entre o MCT e esses ministérios, de sorte a incentivar a realização de projetos estratégicos interministerais, como o Educação para Toda Vida.
O cenário atual cria inúmeros empecilhos para ratificação de projetos estratégicos aprovados no mérito científico (o principal quesito), mas que, via de regra, passam meses e até anos prisioneiros dos desconhecidos meandros e procedimentos conflitantes com que operam os diferentes departamentos jurídicos dos diferentes ministérios.
Urge eliminar tal barreira kafkaniana e transferir o poder de decisão, atualmente nas catacumbas jurídicas dos ministérios onde volta e meia processos desaparecem, para as mãos dos gestores de ciência treinados para implementar uma visão estratégica do projeto nacional de ciência e tecnologia.

12) Criação de joint ventures para produção de insumos e materiais de consumo para prática científica dentro do Brasil

É’ fundamental investir numa redução verdadeira dos trâmites burocráticos “medievais” que ainda existem para aquisição de materiais de consumo e equipamentos de pesquisa importados. Para tanto, é importante definir políticas de incentivo ao estabelecimento de empresas nacionais dispostas a suprir o mercado nacional com insumos e equipamentos científicos.

13) Criação do Banco do Cérebro

Um dos maiores gargalos para o crescimento da área de ciência e tecnologia no Brasil é a dificuldade que cientistas e empreendedores científicos enfrentam para ter acesso ao capital necessário para desenvolver novas empresas baseadas na sua propriedade intelectual.
Na maioria das vezes, esses inventores e microempreendedores científicos ficam à mercê da ação de venture capitalists, que oferecem capital em troca de boa parte do controle acionário da empresa em que desejam investir.
Para reverter esse cenário, o governo federal poderia criar o Banco do Cérebro, uma instituição financeira destinada a implementar vários mecanismos financeiros para fomento do empreendedorismo científico nacional.
Essas ferramentas financeiras incluiriam desde programa de microcrédito científico até formas de financiamento de novas empresas nacionais voltadas para produtos de alto valor agregado, fundamentais ao desenvolvimento da ciência brasileira e da economia do conhecimento.
Para isso, o governo federal deverá exigir que esses novos empreendimentos científicos sejam localizados numa das novas Cidades da Ciência. Joint ventures entre empreendedores brasileiros e estrangeiros também deverão ser estimuladas pelo Banco do Cérebro, seguindo o mesmo critério social.

14) Ampliação e incentivo a bolsas de doutorado e pós-doutorado dentro e fora do Brasil

À primeira vista pode parecer contraditório propor metas para o desenvolvimento da Ciência Tropical e, ao mesmo tempo, reivindicar aumento significativo de bolsas de doutorado e pós-doutorado para alunos brasileiros no exterior.
Novamente, a proposta da Ciência Tropical é, antes de tudo, um nova proposta para o desenvolvimento de excelência na prática da pesquisa e educação científica. Dessa forma, ela tem de incentivar todas as formas que permitam aos melhores e mais promissores cientistas brasileiros complementarem sua formação fora do território nacional.
Como bem disse a presidente-eleita Dilma Rousseff durante a campanha: “ O Brasil precisa de seus cientistas porque eles iluminam o nosso país”.
Pois que os futuros jovens cientistas brasileiros tenham a oportunidade de se transformar em genuínos embaixadores da ciência brasileira e complementar seus estudos em universidades e institutos de pesquisa estrangeiros, líderes em suas respectivas áreas.
Esse processo de intercâmbio e “oxigenação” de idéias é essencial à prática da ciência de alto nível. Mesmo os cientistas brasileiros que optarem por ficar no exterior depois desse e treinamento poderão trazer dividendos fundamentais para o desenvolvimento da Ciência Tropical.

15) Recrutamento de pesquisadores e professores estrangeiros dispostos a se radicar no Brasil

Com a crise financeira, verdadeiros exércitos de cientistas americanos e europeus estarão procurando novas posições nos próximos anos. Cabe ao Brasil tirar vantagem dessa situação e passar a ser um importador de cérebros e não um exportador de talentos.
Historicamente, a academia brasileira tem inúmeros exemplos excepcionais de pesquisadores estrangeiros de alto nível que alavancaram grandes avanços científicos no Brasil. O Programa Brasileiro de Ciência Tropical só teria a ganhar com uma política mais abrangente, audaciosa e sistêmica de importação de talentos.


Conceição Lemes
in: Boca no Trombone

http://muitasbocasnotrombone2.blogspot.com/

Fonte da imagem:
Paulo Afonso Notícias

sábado, 16 de outubro de 2010

O VOTO DO NORDESTE: para além do preconceito





por Tânia Bacelar de Araujo
(Doutora em Economia e Secretária de Planejamento de Miguel Arraes)


A ampla vantagem da candidata Dilma Rousseff no primeiro turno no Nordeste reacende o preconceito de parte de nossas elites e da grande mídia face às camadas mais pobres da sociedade brasileira e em especial face ao voto dos nordestinos. Como se a população mais pobre não fosse capaz de compreender a vida política e nela atuar em favor de seus interesses e em defesa de seus direitos. Não “soubesse” votar.

Desta vez, a correlação com os programas de proteção social, em especial o “Bolsa Família” serviu de lastro para essas análises parciais e eivadas de preconceito. E como a maior parte da população pobre do país está no Nordeste, no Norte e nas periferias das grandes cidades (vale lembrar que o Sudeste abriga 25% das famílias atendidas pelo “Bolsa Família”), os “grotões”- como nos tratam tais analistas – teriam avermelhado. Mas os beneficiários destes Programas no Nordeste não são suficientemente numerosos para responder pelos percentuais elevados obtidos por Dilma no primeiro turno : mais de 2/3 dos votos no MA, PI e CE, mais de 50% nos demais estados, e cerca de 60% no total ( contra 20% dados a Serra).



A visão simplista e preconceituosa não consegue dar conta do que se passou nesta região nos anos recentes e que explica a tendência do voto para Governadores, parlamentares e candidatos a Presidente no Nordeste.



A marca importante do Governo Lula foi a retomada gradual de políticas nacionais, valendo destacar que elas foram um dos principais focos do desmonte do Estado nos anos 90. Muitas tiveram como norte o combate às desigualdades sociais e regionais do Brasil. E isso é bom para o Nordeste.



Por outro lado, ao invés da opção estratégica pela “inserção competitiva” do Brasil na globalização - que concentra investimentos nas regiões já mais estruturadas e dinâmicas e que marcou os dois governos do PSDB -, os Governos de Lula optaram pela integração nacional ao fundar a estratégia de crescimento na produção e consumo de massa, o que favoreceu enormemente o Nordeste. Na inserção competitiva, o Nordeste era visto apenas por alguns “clusters” (turismo, fruticultura irrigada, agronegócio graneleiro...) enquanto nos anos recentes a maioria dos seus segmentos produtivos se dinamizaram, fazendo a região ser revisitada pelos empreendedores nacionais e internacionais.



Por seu turno, a estratégia de atacar pelo lado da demanda, com políticas sociais, política de reajuste real elevado do salário mínimo e a de ampliação significativa do crédito, teve impacto muito positivo no Nordeste. A região liderou - junto com o Norte - as vendas no comercio varejista do país entre 2003 e 2009. E o dinamismo do consumo atraiu investimentos para a região. Redes de supermercados, grandes magazines, indústrias alimentares e de bebidas, entre outros, expandiram sua presença no Nordeste ao mesmo tempo em que as pequenas e medias empresas locais ampliavam sua produção.



Além disso, mudanças nas políticas da Petrobras influíram muito na dinâmica econômica regional como a decisão de investir em novas refinarias (uma em construção e mais duas previstas) e em patrocinar - via suas compras - a retomada da indústria naval brasileira, o que levou o Nordeste a captar vários estaleiros.



Igualmente importante foi a política de ampliação dos investimentos em infra-estrutura – foco principal do PAC – que beneficiou o Nordeste com recursos que somados tem peso no total dos investimentos previstos superior a participação do Nordeste na economia nacional. No seu rastro,a construção civil “bombou” na região.



A política de ampliação das Universidades Federais e de expansão da rede de ensino profissional também atingiu favoravelmente o Nordeste, em especial cidades médias de seu interior. Merece destaque ainda a ampliação dos investimentos em C&T que trouxe para Universidades do Nordeste a liderança de Institutos Nacionais – antes fortemente concentrados no Sudeste - dentre os quais se destaca o Instituto de Fármacos ( na UFPE) e o Instituto de Neurociências instalado na região metropolitana de Natal sob a liderança do cientista brasileiro Miguel Nicolelis que organizará uma verdadeira “cidade da ciência” num dos municípios mais pobres do RN ( Macaíba).



Igualmente importante foi quebrar o mito de que a agricultura familiar era inviável. O PRONAF mais que sextuplicou seus investimentos entre 2002 e 2010 e outros programas e instrumentos de política foram criados ( seguro – safra , Programa de Compra de Alimentos, estimulo a compras locais pela Merenda Escolar, entre outros) e o recente Censo Agropecuário mostrou que a agropecuária de base familiar gera 3 em cada 4 empregos rurais do país e responde por quase 40% do valor da produção agrícola nacional. E o Nordeste se beneficiou muito desta política, pois abriga 43% da população economicamente ativa do setor agrícola brasileiro.



Resultado: o Nordeste liderou o crescimento do emprego formal no país com 5,9% de crescimento ao ano entre 2003 e 2009, taxa superior a de 5,4% registrada para o Brasil como um todo, e aos 5,2% do Sudeste, segundo dados da RAIS.



Daí a ampla aprovação do Governo Lula em todos os Estados e nas diversas camadas da sociedade nordestina se refletir na acolhida a Dilma. Não é o voto da submissão - como antes - da desinformação, ou da ignorância. É o voto da auto- confiança recuperada, do reconhecimento do correto direcionamento de políticas estratégicas e da esperança na consolidação de avanços alcançados – alguns ainda insipientes e outros insuficientes. É o voto na aposta de que o Nordeste não é só miséria (e, portanto, “Bolsa Família”), mas uma região plena de potencialidades.



E o voto agora é 13 !!!

Agradecimentos à amiga Valda Colares, de Olinda e do mundo!

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

DE COMO CONQUISTAR OS ELEITORES DE MARINA






O que dizem os votos de Marina e como conquistá-los


Você pode discutir qual é o peso relativo dos três (não dois) grandes blocos de votos que contribuíram para os surpreendentes 20% de Marina Silva: 1) o voto estritamente marinista, verde, ecológico, que é crítico de algo maior que o PT, ou seja, de todo um paradigma desenvolvimentista que, ironia das ironias, o PT veio a representar melhor que ninguém; 2) o voto "ético"-jovem-universitário-profissional-liberal-urbano, uma parte dele (a maior, me parece) composta por desiludidos com erros ou presepadas do PT, e a outra parte (menor, me parece) composta por eleitores movidos pelo episódio Erenice; 3) o voto evangélico que, por sua vez, tampouco é homogêneo, posto que formado de uma parcela—menor, creio—de votantes que já estavam com Marina e outra parcela—maior, creio—que foi mobilizada em termos anti-Dilma às vésperas da eleição. Num debate que teria, de preferência, que se realizar com atenção aos mapas relevantes, poder-se-ia discutir à exaustão qual é a contribuição de cada um desses segmentos para o resultado final.

O que me parece indiscutível é que somente este último, o voto evangélico, chega como irrupção e acontecimento. Foi ele o grosso do voto não computado nas pesquisas. Isso me parece verdadeiro, mas não se pode pular daí para a afirmação de que foi o atraso quem impediu a vitória dilmista no primeiro turno. Essa linha de análise é sempre muito rasa.

Para a campanha de Dilma, a tarefa é dupla. Por um lado, há que se entender os recados dados por todos os segmentos que votaram em Marina, para que a partir daí ocorra a negociação e o convencimento desse eleitorado. Esses recados têm densidade, têm conteúdo, aludem a fatos reais e não se limitam, de forma nenhuma, a uma suposta “Marina no colo da direita”. Jogar por aí é não entender o jogo. Por outro lado, há que se analisar quais foram os erros de campanha de Dilma que ajudaram a impedir a esperada vitória no primeiro turno. Fazer as duas coisas já não é fácil. Fazê-las simultaneamente é mais difícil ainda, pois a primeira—ouvir realmente os eleitores de Marina—exige humildade, proximidade e empatia. A segunda tarefa—fazer a autocrítica da campanha—exige inteligência, desprendimento, distância. São duas tarefas aparentemente contraditórias, que demandam posturas e capacidades opostas, mas elas são simultâneas e complementares.

O fascinante do resultado de domingo é que todo mundo errou. Se alguém aí previu que Marina venceria em Belo Horizonte, Maceió, Distrito Federal, Nova Lima, Volta Redonda, Vitória, Vila Velha e Niterói, além de praticamente empatar com Dilma em Natal e superá-la em Campina Grande, levante a mão, mostre um link com data anterior a 03 de outubro, que eu visto uma camisa do Flamengo ou do Cruzeiro aqui, a gosto do freguês. Todo mundo errou nas previsões, inclusive o vitorioso de domingo na eleição presidencial, que foi claramente o campo marinista. Por isso o futebol, na sua imponderabilidade, é o esporte que mais tem a ver com a política democrática. Sim, trata-se do velho clichê da caixinha de surpresas, mas também do dado menos óbvio de que o futebol é o menos contábil dos esportes, e se há uma mensagem relevante que a campanha de Marina tentou transmitir é a crítica à redução do mundo a uma lógica contábil. Quando gente como Ricardo Paes de Barros, José Miguel Wisnik, Alexandre Nodari e Eduardo Viveiros de Castro coincidem numa candidatura que não é a sua, ou que não é a que você esperava que eles apoiassem, só um sectário muito desprovido de sensibilidade passaria à desqualificação sem uma escuta detida.

No campo dos erros, há que se destacar os estruturais, mais antigos, e os conjunturais, que se manifestaram de uma forma especialmente maluca nesta campanha. Os erros estruturais são parte do recado das urnas marinistas e não podem ser ignorados. O caso de Belo Horizonte é emblemático. Há exatos dois anos, o PT concluía 16 anos de governo de uma coalizão sua na cidade, com um prefeito que deixava o cargo com noventa por cento de aprovação. Esse prefeito, Fernando Pimentel, é diretamente associado a Dilma e é parte da cúpula de sua campanha. A cidade não tem qualquer tradição de antipetismo raivoso como aquele encontrado em partes de São Paulo e Porto Alegre. Como é possível que o resultado aqui tenha sido Marina Silva 39,9%, Dilma Rousseff 30,9% e José Serra 27,7%, num contexto de grande vitória da esquerda nas legislativas?

Essa parte me parece relativamente simples. As urnas disseram: “não gostamos das lambanças do PT-BH nas eleições de 2008 e do PT-MG em 2010, apesar de o PT ter governado bem a cidade. Votaremos em alguém que é suficientemente próxima aos ideais da bem sucedida prefeitura de 1992-2008, mas que se afastou do campo petista, em parte, por lambanças como essa”. Junte-se a esse recado mais estrutural a avalanche de desinformação e propaganda pra cima dos evangélicos nos últimos dias--essa avalanche realmente existiu—e você tem os ingredientes dos números que deixaram todos os junkies políticos belo-horizontinos de queixo caído. Os mesmos ingredientes se combinam em outras latitudes, como o Acre, um estado onde o PT tem fortíssimas raízes, elegeu o Governador e um Senador, mas no qual Dilma ficou empatada com Marina e bem longe de Serra. Se você é petista e não vê aí um recado além do “Marina está no colo da direita” ou do “Marina é a falência do movimento ecológico” (sim, isso foi escrito), sinto muito, você precisa ler a Flávia Cera.

É sabido que, por volta de dois meses atrás, um grupo de lideranças evangélicas procurou a campanha de Dilma, preocupadas com a disseminação de boatos e emails falsos. A campanha fez a “Carta ao Povo de Deus” e ficou por isso mesmo. Os programas de João Santana—excelentes, belíssimos, inovadores—não dedicaram um só minuto, no entanto, à refutação da pilha de spam religioso anti-Dilma disseminada para púlpitos e fiéis. A coordenação de internet não ofereceu respostas a isso. Preferiu brincar de Twitter e #ondavermelha. A campanha online foi feita à base do cada um por si, sem que se aproveitasse de forma coordenada a enorme base de recursos humanos da esquerda brasileira na rede.

Quando os evangélicos voltaram a procurar a campanha de Dilma, em setembro, o nível da loucura havia piorado sensivelmente. Algumas lideranças religiosas gravaram depoimentos de apoio à candidata petista, mas não houve uma resposta sólida e consistente da campanha. Os marqueteiros não são lá grandes fãs do potencial da rede e, por sua vez, a coordenação de internet de Dilma era pobre e fraca de ideias. É importante reconhecer isso sem que esse reconhecimento nos ensurdeça para o recado real das urnas marinistas, que transcende em muito o spam do ódio.

É evidente que temos que explicar que Michel Temer não é satanista. Aliás, podemos inclusive esclarecer que ele já fez pactos com o DEM mas, pelo que nos consta, com Satã nunca aconteceu. Mas é preciso fazer isso sem desmerecer ou desqualificar o recado dado pelas urnas marinistas em sua totalidade, sem reduzir o voto de Marina a qualquer um de seus blocos, muito menos o evangélico, justamente aquele que é mais conjuntural (apesar que não necessariamente menos numeroso) na constituição da identidade da sua candidatura.

Não há motivo para pânico. Marina tem muito mais a ver com Dilma que com Serra, e isso é o próprio Serra quem diz. Para nós, faltam 3 pontinhos. Para Serra, faltam quase 18. Marina sabe que coloca seu capital político em maus lençóis se apoiar alguém como Serra. Também sabe que não lhe interessa entregar nada de graça a Dilma agora, e há que se entender isso. É da política. Um petista reclamando que Marina não está agindo de forma a facilitar as coisas pra nós é como um lateral queixando-se de que um ponta o engana, fingindo que vai abrir o jogo para depois cortar para o meio. Ora, você tem que aprender a marcar. O jogo é jogado.

Ainda estamos bem, mas é preciso jogar com inteligência, humildade e decência e, acima de tudo, não deixar que nenhuma dessas qualidades atrapalhe as outras duas.



Escrito por Idelber às 04:55
em O Biscoito Fino e a Massa


fonte da imagem
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Agradeço ao Blog do Itárcio por ter me indicado essa bela postagem.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Marina: um projeto para o futuro





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Não pensem que joguei a toalha. De jeito algum. Em 1989, com o Lula, também passei por esse momento. Não desisti e votei nele em todas as eleições, até a vitória. Agora é a vez de um sonho maior. Marina Silva. Ecoconsciencia, ecossocialismo, economia solidária. Palavras novas que me dão o mesmo tesão para a luta, como desde os idos de 1989.
Estarei com esse projeto, Marina-Presidente, em todas as eleições em que for me dada a honra de votar nela, a nível nacional. (Luiz Eurico de Melo Neto)


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Marina é projeto para futuro, diz Cohn-Bendit






foto:Daniel Cohn-Bendit - Paris/1968














Texto de Sérgio Bueno, de Porto Alegre

Estrela do ato político no qual anunciou apoio à Marina Silva (PV) na disputa presidencial, o líder da bancada verde no Parlamento Europeu e ex-ativista do movimento estudantil de maio de 1968 na França, o alemão Daniel Cohn-Bendit afirmou ontem que a candidata brasileira é um "projeto para o futuro". De acordo com ele, o desempenho de Marina nas pesquisas é um "bom primeiro passo" para a consolidação na agenda ambiental no Brasil.
Conforme o parlamentar alemão, a conversão da economia para bases ambientalmente mais sustentáveis é um desafio de "longo prazo" em todo o mundo e mesmo que a candidata do PV seja derrotada no Brasil, ela deve continuar "construindo" um projeto ecológico para o país. Na opinião dele, a definição da eleição brasileira no primeiro turno é prejudicial não apenas para o debate ambiental, mas para a democracia em si.
Apesar de insistir que está entusiasmada com os índices obtidos nas últimas pesquisas, entre 8% e 10%, e que está confiante na possibilidade de ir para o segundo turno, a própria Marina comprometeu-se a prosseguir na militância ambiental caso não seja eleita. "Vou continuar como sempre fui; estou nesta luta deste os 17 anos", afirmou. Segundo ela, como "presidente da República, como professora ou como uma velhinha tricotando na varanda, ainda vou estar lá fazendo a mesma coisa".
Conforme Cohn-Bendit, parte da Europa está "atenta" às eleições brasileiras devido à importância e à capacidade do país de "dar os passos adequados" no caminho de uma transformação sustentável na forma de condução da economia. "Não pode haver uma reforma ecológica apenas na Europa. Ou isso é feito pelo planeta inteiro ou nada acontece. Por isso a eleição daqui é tão essencial para nós", afirmou.
Para o parlamentar, a principal disputa na eleição brasileira deste ano se dá entre Marina e a candidata do PT, Dilma Rousseff, que representam duas possibilidades distintas de desenvolvimento. "Uma (Dilma) tradicional, social-democrata, e outra (a candidata do PV) de transformação ecológica".
Segundo ele, a petista é hoje a principal oponente de Marina porque é quem lidera a corrida presidencial no país. Para Cohn-Bendit, tanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o PT, de um lado, quanto o candidato do PSDB, José Serra, de outro, representam visões semelhantes sobre crescimento, embora os primeiros estejam mais próximos dos partidos socialistas da França e da Alemanha e o segundo, do "novo trabalhismo" do ex-premiê britânico Tony Blair.
A própria Marina tratou de reforçar a semelhança entre os dois adversários. "Dilma e Serra são muito parecidos porque têm uma visão " crescimentista " e gerencial, enquanto o Brasil precisa de uma visão estratégica". Ela ressalvou que considera Lula um "desenvolvimentista progressista, com olhar para o social", mas disse que ele assume uma posição "equivocada" do "crescimento pelo crescimento", no "estilo de uma liderança velha, ultrapassada".
Cohn-Bendit disse ainda que a exemplo dos parlamentares "verdes" europeus - que ocupam 55 cadeiras e são a quarta força do Parlamento do continente - os deputados brasileiros do PV podem obter melhores resultados na disputa pelo fortalecimento da agenda ambiental se trabalharem para constituir maiorias em torno de questões específicas como a redução de emissões e a economia de energia. "É preciso criar movimentos sociais através do Parlamento", comentou.
Marina reconheceu que o PV brasileiro tem lições a aprender com os "verdes" da Europa, mas afirmou que o "movimento contrário" é mais comum. "Em vários lugares do mundo o Partido Verde tem se interessado pela experiência do Brasil porque aqui começamos, desde a época do Chico Mendes (ex-seringueiro defensor da preservação da Amazônia assassinado em 1988), a colocar a questão ambiental não como a defesa do verde pelo verde, mas colocando o caráter social, econômico e político dessa questão".


Fonte do texto de Sergio Bueno:
Daniel Cohn-Bendit
político alemão, líder da bancada verde no Parlamento Europeu e ex-ativista do movimento estudantil de maio de 1968 na França,.

Fonte da imagem:
Mulheres no poder

domingo, 27 de junho de 2010

Por uma civilização da ternura























A herança de Comboni - Por uma civilização da ternura
Por: ALEX ZANOTELLI, Missionário Comboniano



Por todo o lado, injustiça, guerra, sede de domínio, esbanjamento, exploração, destruição, esgotamento dos recursos. O sistema mantém e reproduz o mal, o pecado é idolatrado como instituição. Para recuperarmos o grande sonho de Deus, tem de nascer o homem novo – o homem planetário. Urge construir a civilização da ternura. Todos juntos.


Mudar o Mundo, Um Desafio para a Igreja era o título de um livro publicado em França em 1980, escrito por Vincent Cosmao, director do Centro Lebret. Foi Lebret, dominicano francês, muito estimado por Paulo VI, quem fez o primeiro rascunho da encíclica Populorum Progressio e inventou o slogan «Mudar o mundo». Esse livro marcou-me profundamente. Havia entrado recentemente para a redacção da revista Nigrizia, e o pensamento do padre Cosmao influenciou-me muito. E ainda hoje conserva uma fulgurante actualidade.

O padre Cosmao, que detinha uma notável experiência de serviço em Dacar (Senegal), baseia-se em quatro pontos fundamentais: «O Evangelho, Boa Nova anunciada aos pobres, é a força de Deus para a transformação do mundo.»; «a tradição judaico-cristã é atravessada por uma sequência, descontínua, de tentativas para regulamentar a tendência da sociedade em estruturar-se na desigualdade.»; «o empenho pela justiça ou contra a injustiça é uma das linhas de força da prática e da pregação dos profetas.»; «a prática e a pregação de Jesus põem em relevo o direito dos pobres a participarem na vida colectiva e nos seus frutos.»

Estes pensamentos de Cosmao, que resumem as escrituras hebraicas e cristãs sobre este assunto, foram reforçados e enriquecidos em mim com a leitura e a prática das comunidades dos pobres no Sul do mundo, sobretudo em Korogocho (bairro de lata de Nairobi), e com o aprofundamento bíblico feito por peritos norte-americanos, que viveram e vivem em comunidades de resistência. Um deles, Walter Brueggeman, explica assim no seu livro The Prophetic Imagination as novas intuições sobre a tradição judaico-cristã: Javé confiou ao seu servo Moisés o seu «grande sonho» (Salmo 106) para que o seu povo, Israel, pudesse viver como comunidade alternativa aos impérios ou às cidades-estados do Médio Oriente. Cada império desenvolve-se numa economia de opulência (poucos ricos de barriga cheia à custa de muitos mortos de fome!), que requer uma política de opressão abençoada por uma religião onde deus se torna o deus do sistema.

Pelo contrário, Deus sonha que o seu povo se torne uma comunidade alternativa ao império. Para isso, tem de perseguir uma economia de igualdade (onde os bens, como a terra, sejam divididos com justiça), que se poderá conseguir unicamente se se adoptar uma política de justiça. Tudo isto pode ser possível se Deus for entendido como o «totalmente outro», como o radicalmente livre e, portanto, não seja o garante da ordem imperial. Javé é aquele que está do lado dos oprimidos, dos escravos, dos marginalizados... e, por isso, questiona qualquer império que crie excedentes! E quando Israel atraiçoa esta tradição (com Salomão), surgem os profetas que recordam ao povo o sonho de Deus e, em nome desse sonho, colocarão o dedo na ferida em carne viva.


O grande sonho de Deus


Jesus encarnou aquele sonho de Deus, que nele tomou um rosto («o Verbo fez-se carne») e o proclamou naquela Galileia espezinhada pelo imperialismo romano que sugava o sangue daqueles pobres camponeses (a Boa Nova aos pobres!).

Ao povo da Galileia que «jazia nas trevas e na sombra da morte», como Mateus afirma, Jesus anunciou a esperança. «O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para anunciar a Boa Nova aos pobres... a proclamar a libertação aos cativos... e um ano favorável da parte do Senhor» (Lc. 4, 18-19). Segundo Lucas, Jesus teria proclamado o ano jubilar, que não era senão uma maneira de fazer regressar o infiel Israel àquela economia de igualdade que Javé sonhava para o seu povo. «Anunciar a Boa Nova aos pobres significa mudar as realidades socioeconómicas e espirituais fundamentais dos camponeses endividados, de gente sem terra, desempregados, escravos», afirmam as duas biblistas americanas R. e G. Kinsler. «É importante notar que o ano de graça que Jesus proclamou como chegada do reino de Deus não era mais um ano em cada sete ou um ano em cada cinquenta, mas uma nova era de libertação perpétua de todos os géneros de opressão para todo o povo de Deus.»

Jesus, naquela Galileia esmagada sob o tacão imperial romano, relança de forma solene o grande sonho de Deus, partindo daqueles pequenos grupos ou comunidades nas aldeolas da região que haviam acolhido a sua mensagem. «A intuição de Jesus não era guiar os seus seguidores para comunidades desencarnadas, mas criar comunidades alternativas que pudessem resistir e desafiar os sistemas de poder, como Ele mesmo fez, pagando pessoalmente», escrevem Richard Horsley e Neil Silberman nos seus estudos The Message and the Kingdom. «O reino de Deus que Jesus proclamava era precisamente aquela ordem socioeconómica e espiritual anunciada na lei e nos profetas e condensada na visão do sábado-jubileu. Jesus renovou a memória subversiva das tribos de Javé e a expectativa do reino de Deus nas aldeias da Galileia.»

A novidade surgia assim vinda de baixo em agradáveis comunidades alternativas onde se pregava o acolhimento, o perdão recíproco, e dos inimigos, a remissão das dívidas, o «partir o pão» (símbolo daquela economia de igualdade do grande sonho de Deus!).

Jesus, andando pelas aldeolas da Galileia, fazia nascer a vida, florescer a esperança. «Vim para que tenham vida e a tenham em abundância», diz Jesus no Evangelho de João. Quem deseja e luta pela vida, e vida em abundância, num sistema de morte, será tido como uma séria ameaça ao próprio sistema, ao império.

E quando Jesus resolve marchar sobre Jerusalém com a pobre gente da Galileia, o sistema reagirá condenando-o à morte na cruz reservada por Roma aos escravos e aos instigadores contra o Império. Jesus foi crucificado fora dos muros de Jerusalém. E a esse crucificado o Abba (Papá) manteve-se fiel. «Está vivo! Ressuscitou!» E em seu nome aqueles primeiros discípulos relançarão o grande sonho de Deus que se exprimirá através das comunidades alternativas de Jerusalém (Actos dos Apóstolos), das comunidades paulinas alternativas ao império (as cartas de Paulo) e das seitas ekklesiai do Apocalipse alternativas ao ethos imperial.


Sistema de morte


Infelizmente, tornando-se, com Constantino, a religião do império, o cristianismo perde a sua função de ser consciência crítica, transformando-se, em vez disso, em religião civil.

Para sair desta situação, Vincent Cosmao propõe outros quatro pontos fundamentais: «Tornando-se religião civil do Ocidente, o cristianismo perdeu, com o andar dos tempos, a sua capacidade de resistir efectivamente à reestruturação das sociedades na desigualdade.»; «recusando tornar-se religião civil do mundo, o cristianismo reencontra a sua possibilidade de se tornar mensageiro das esperanças dos pobres.»; «quando Deus é visto como guardião da ordem, o ateísmo torna-se a condição da transformação social.»; «a leitura crítica da história da Igreja é a condição dolorosa do relançamento do cristianismo como movimento histórico.»

Só se soubermos, como cristãos, voltar a ser consciência crítica da sociedade encontraremos toda a força subversiva do Evangelho, boa nova para os pobres. «Dado que o mundo se estruturou no pecado – prossegue Cosmao –, a participação na sua transformação torna-se condição da conversão a Deus em Cristo Jesus.»

É evidente que o mundo de hoje «se estruturou no pecado». O nosso é um sistema de morte. Vivemos dentro de um sistema económico-financeiro que massacra milhões de seres humanos. São as grandes potências financeiras que governam o mundo (300-400 «famílias»!). É a dívida colossal de 2,500 mil milhões de dólares a sufocar os pobres, que todos os anos pagam aos ricos 200 mil milhões de dólares. São os pobres a pagar a dívida com a fome e a falta de remédios, escolas, hospitais... Hoje, com as novas tecnologias, os pobres já não têm qualquer utilidade como «força de trabalho», mesmo pagos com salários de miséria, transformam-se nos novos marginalizados, em excedentes! Mais de mil milhões de seres humanos são considerados inúteis. Vinte por cento da população mundial detém e consome 83 por cento dos recursos. Os restantes 80 por cento apenas recolhem as migalhas: 17 por cento! De facto, 60 por cento (os pobres) têm de se contentar com 15,6 por cento dos recursos, enquanto para os 20 por cento dos mais pobres (os miseráveis) apenas resta 1,4 por cento dos recursos. No Sul do mundo, em apenas 10 anos, o número dos miseráveis aumentou quase 100 milhões.

No último relatório da Unicef (2002) afirma-se que em 2001 morreram 11 milhões de crianças com doenças menos graves que uma gripe. Hoje estão a regressar doenças que pareciam debeladas: em 2001, a doença do sono matou 300 mil pessoas, a tuberculose oito milhões. E a malária, em África, mata mais que a sida.

A decisão das multinacionais farmacêuticas americanas e europeias de proibirem a produção de remédios anti-sida no Sul do mundo acarreta a morte a 28 milhões de doentes de sida na África. Ainda em 2001, cerca de 120 milhões de crianças não puderam frequentar a escola primária! Este sistema económico-financeiro declarou guerra aos pobres, é a guerra mundial que mata 30-40 milhões de pessoas por ano!

Surge espontânea a pergunta: como pode um sistema destes aguentar-se? Como pode 20 por cento da população mundial continuar a consumir 83 por cento dos recursos? E a resposta é só uma: as armas! Porque os 20 por cento estão armados até aos dentes! As armas servem para manter privilégios e riquezas!


A guerra infinita


Em 2002, os EUA investiram algo como 500 mil milhões de dólares na defesa! A que é preciso acrescentar ainda os 60 mil milhões de dólares concedidos pelo Congresso a pedido de Clinton para renovar todo o arsenal atómico. Sem esquecer 50-70 milhões de dólares para a construção do escudo espacial, que nos custará, quando os trabalhos estiverem terminados, 300 mil milhões de dólares. E, por fim, a guerra do Iraque, que já custou aos EUA cerca de 80 mil milhões de dólares.

As armas são o motor da economia. O nosso é um sistema económico-financeiro militarizado. É um sistema permanentemente em guerra. A guerra contra o Iraque é apenas o início: é uma guerra infinita. É um nunca acabar de guerras: há mais de 40 conflitos no mundo! A África encontra-se a braços com cerca de 17 conflitos sangrentos. Só na Libéria registaram-se já mais de 200 mil mortos!

Mas é sobretudo a guerra na RD Congo que nos horroriza! Seis anos de guerra: quatro milhões de mortos! Uma guerra orquestrada em Washington, Paris, Londres..., uma guerra pelas imensas riquezas do Congo, sobretudo ouro, diamantes, cobalto, tântalo (que é usado nos telemóveis). Minérios sangrentos! Com um silêncio total por parte da imprensa ocidental.

É já claro para todos que os mass media são, na sua grande maioria, parte integrante do sistema económico-financeiro militarizado. Nos EUA, os mass media encontram-se nas mãos de uma dezena de enormes complexos económico-financeiros. Em Itália, o primeiro-ministro, Silvio Berlusconi, é dono de 90 por cento dos media, e não quer ficar-se por aí, aproveitando as facilidades da Lei Gasparri. O poder mediático encontra-se hoje solidamente nas mãos do poder económico-financeiro. Os media existem não para nos informarem, mas para nos venderem uma mercadoria (até a notícia é uma mercadoria!). É a mercantilização da informação.

Já Karl Popper (um dos mais notáveis pensadores nos EUA) dizia há anos: «Com esta televisão não pode haver democracia!»


Estrangular o mundo


Vivemos mergulhados num sistema económico-financeiro militarizado e mediatizado que mata não apenas com fome e guerra, mas destrói o próprio planeta. Cientistas como Lester Brown (assina o relatório anual O estado do mundo) avisam-nos de que temos pouco tempo (cerca de 50 anos) para que os 20 por cento do mundo, os ricos, mudem o estilo de vida. Se nos recusarmos a mudar, não será possível às gerações vindouras sobreviverem. O problema não vem dos pobres, mas dos 20 por cento de ricos do mundo. De facto, os 20 por cento de ricos do mundo gastaram mais recursos nestes últimos 50 anos que toda a humanidade num milhão de anos!

Se os outros – 80 por cento da população mundial – pretendessem viver como vivem os 20 por cento do mundo rico, precisaríamos de quatro planetas Terra como reservatório de recursos e de outros quatro planetas Terra como lixeira para vazar o nosso lixo. Este sistema é insustentável.

Bastaria ler o que afirma a International Geosphere Biosphere Programme (o programa científico mais importante sobre a mudança global em curso no mundo): Em poucas gerações, a humanidade gastou reservas de combustíveis fósseis geradas em centenas de milhões de anos, estando à beira do seu esgotamento; a concentração na atmosfera de diversos gases que fomentam o efeito de estufa, sobretudo o anidrido carbónico e o metano, aumentou perigosamente, originando rápidas mudanças climatéricas.

De 1992 a 2001, as emissões globais de carbonos aumentaram nove por cento (só nos EUA registaram-se 18 por cento). As catástrofes acontecidas neste Verão na Europa são um sinal do futuro que nos espera. Estamos a estrangular o universo com as nossas próprias mãos!


Grande sistema de mal


Não podemos viver em sistemas de morte sem nunca nos apercebermos do mal em relação aos comportamentos sociais. Reporto aqui a reflexão de um dos maiores bispos da África, o arcebispo católico Dennis Hurley, agora aposentado: «Seríamos levados a crer que os comportamentos sociais são responsáveis pela maioria dos males que se abatem sobre o mundo, males grandes e desastrosos, mas não imputáveis, se os analisarmos bem, a indivíduos, ou se o forem, a muito poucos.» E o arcebispo acrescenta: «Se pensarmos no grande mal que o colonialismo, o capitalismo, o nazismo, o fascismo, o marxismo causaram..., podemos interrogar-nos quantos agentes, pelo menos na massa (e isso significa a maioria), pecaram realmente em sentido moral. Quase sempre eram motivados por comportamentos sociais – cegos e paralisantes comportamentos sociais.»

E com amargura Hurley, partindo da sua experiência na África do Sul do apartheid, diz: «É possível crescer até à maturidade e para além dela numa sociedade que vive e prospera baseada na injustiça. Como faz a sociedade branca da África do Sul, sem nunca se aperceber disso. É possível fazer parte de um grande sistema de mal sem saber. E tudo isso devido aos comportamentos sociais!»

Poucos teólogos entenderam isso tão bem como o tanzaniano Laurenti Magesa: «A pior espécie de pecado, de facto o único pecado mortal, que tornou o homem escravo durante a maior parte da sua história, é o pecado institucionalizado. Na instituição, o vício parece virtude, ou é de facto considerado como tal. Nasce assim a apatia para com o mal, qualquer reconhecimento do pecado é totalmente cancelado, instituições pecaminosas são absolutizadas, quase idolatradas, e o pecado torna-se mortal de maneira absoluta. Na Sagrada Escritura, o pressuposto para o arrependimento (como, afortunadamente, o é para o catecismo) é o reconhecimento e a admissão da culpa. Mas o reconhecimento do mal, e por conseguinte o arrependimento do pecado, torna-se praticamente impossível quando o pecado é idolatrado como instituição.»

A primeira conclusão é que na vida da Igreja «se prestou muita atenção à dimensão pessoal – prossegue Hurley –; chegou a altura de dedicar-se, na mesma medida e até mais, à transformação social.» E Hurley acrescenta que na história da história da Igreja o Evangelho transformou radicalmente pessoas – Saulo em Paulo, Inácio de Loiola de cavaleiro de Carlos V num homem novo... –, mas não temos nenhuma sociedade ou cidade-estado ou nação que tenha sido radicalmente transformada pelo Evangelho.


Juntos podemos


É preciso uma autêntica revolução antropológica: partindo da pessoa (a conversão é pessoal) chegar aos comportamentos sociais. Poucos o perceberam tão bem como o americano Walter Wink no seu estupendo livro Regenerar os Poderes. «A irredutibilidade do social ao pessoal e do pessoal ao social: estes dois princípios formam uma unidade indissolúvel e contra qualquer mero reducionismo individualista ou sociológico. Deus quer a transformação dos indivíduos e da sociedade. Entraremos na Nova Jerusalém como indivíduos, mas com as nossas nações, redimidas ou saradas pelas folhas da árvore da vida (Apoc. 21, 24-26; 22, 2). O anúncio do Evangelho e a luta social são os dois braços da tenaz do único empenho na transformação do mundo. Os poderes são bons, os poderes decaíram, mas os poderes são redimíveis. Eis uma esperança digna d’Aquele em, através e em vista do qual existem todas as coisas, uma esperança que celebramos e cantamos no antegozo da restituição de todas as coisas ao abraço do amor de Deus.»

Para mudar o sistema, precisamos de uma revolução humana, antropológica. Como surgiu, a certa altura da evolução humana, o Homo sapiens, assim agora deve surgir o Homo planetarius, diria o padre Balducci. É um salto de qualidade humana que tem de ocorrer. É a recuperação da dignidade de cada pessoa humana, de cada rosto... Cada rosto é único e irrepetível, cada rosto é uma página de história sagrada. Cada encontro é graça! Eu sou as pessoas com quem me encontro! Mas não haverá o meu rosto se eu não acolher o rosto do irmão e da irmã, uma riqueza para mim porque diferentes de mim! Diferentes pela cor, pela cultura, pela religião, pelo género!

«Não há humanidade sem ser no plural – dizia o bispo de Orão, Claverie, vítima de um atentado em 1996 – e eu preciso da verdade dos outros!» Os imigrados entre nós são uma enorme riqueza cultural, religiosa, antropológica que nos torna a todos mais ricos se os acolhermos. O rosto do meu irmão, uma riqueza para mim, porque diferente de mim, o rosto da minha irmã... O coração de uma mulher é a ternura. De um sistema como o nosso, violento, patriarcal e machista, temos de passar para a civilização da ternura: nisso, os rostos das nossas irmãs desempenharão um grande papel se souberem manter-se fiéis à sua ternura transformando-a em princípio político vencedor. Não haverá nem o meu rosto nem o do meu irmão enquanto houver rostos de crucificados. Neste mundo, ou somos todos rostos ou ninguém é rosto! Ou todos somos cidadãos ou ninguém o é! Senão seremos meros tubos digestivos para atirar ao lixo.

Tem de nascer o homem novo, diria Paulo, tem de nascer o homem planetário. Precisamos de dar um salto em humanidade, mas de forma aberta, festiva, comunitária. É fundamental este estar juntos, fazer comunidade. Só as comunidades poderão resistir a este sistema de morte. Juntos podemos.



O mundo nas nossas mãos


Temos de nos convencer de que, juntos, podemos conseguir mudar o mundo. Como? Eis alguns exemplos. No campo económico-financeiro:

* Estilo de vida pessoal. Vivemos acima das nossas possibilidades. Comemos de mais, viajamos de mais, compramos objectos de marca... Temos de começar a compreender que se pode viver com muito menos.

* Estilo de vida familiar. São muitas as famílias que começam a praticar os «orçamentos de justiça», isto é, a fazer os orçamentos familiares e depois cortar o que está a mais.

* Comércio justo e solidário. Nasce da consciência de que o comércio escraviza os pobres. As Lojas do Comércio Justo compram em cooperativas de agricultores ou artesãos do Sul do mundo pagando um preço justo aos trabalhadores e vendem em espaços que se tornaram local de encontros, centros de resistência ao sistema e de construção de comunidade.

* Banca Ética. Assegura (pode-se controlar) que o nosso dinheiro é investido em projectos que servem às pessoas, aos pobres... e não em armas, droga...

* Sobriedade. Assenta em quatro imperativos que começam pela letra erre: a) Reduzir – olhar apenas para o essencial; b) Recuperar – ou seja, reutilizar o mesmo objecto enquanto for possível; c) Restaurar; d) Respeitar.

* Consumo crítico. Todos nós votamos hoje quando vamos ao supermercado, aos centros comerciais. É aí que “elegemos” o sistema. Os produtos de certas multinacionais como a Nestlé encontram-se já na lista negra de diversas campanhas. O importante aqui é lembrar que estas campanhas terão êxito se forem expressão de entidades, comunidades, associações... Se, por exemplo, todas as escolas superiores de uma cidade boicotarem os chocolates Nestlé no intervalo da manhã, e o fizerem escrevendo à Nestlé, ao centro comercial e aos jornais locais, a campanha pode ter um impacte notável.

* Poupança responsável. Há que excluir imediatamente os bancos que se envolvem com armas, com os paraísos fiscais, com os regimes opressivos. Também aqui não são campanhas pessoais, mas boicotes colectivos. Se, por exemplo, as dioceses de uma região decidirem retirar o seu dinheiro de bancos ligados ao comércio de armas, teriam um impacte público enorme.


Quanto à prevenção da guerra e à promoção da paz, sugere-se:

* Opção pela não-violência activa. É fundamental a opção pela não-violência activa que Gandhi popularizou, mas que foi inventada por Jesus de Nazaré. Trata-se de uma questão de vida ou de morte, que a todos diz respeito.

* Dizer não ao rearmamento e sim ao desarmamento. É fundamental para iniciar campanhas, movimentos para deter a escalada de rearmamento a que estamos a assistir. Temos de dizer não à bomba atómica, que é a negação de Deus. Temos de ajudar toda a gente a compreender que é preciso escolher entre Deus e a bomba atómica.

* «Não à guerra justa». A Igreja tem de abandonar o conceito de guerra justa. Depois de Hiroxima não há mais guerra justa. João Paulo II indicou-nos o caminho de forma profética com a sua forte oposição à guerra contra o Iraque. A Igreja tem de dar um salto qualitativo a este nível.

* Campanha Bancos Armados. É clara a ligação finança-armas. Por isso, qualquer banco conotado com armas tem de ser boicotado.

* Objecções de consciência. Diante de uma tão grande militarização, é importante avançar com as diversas objecções de consciência: a) Profissional – recusa, por parte de quem trabalha na fábrica, de construir armas ou de fazer investigação militar. b) Objecção de consciência à tropa – recusa de ir à tropa, porque hoje os exércitos são profissionalizados e têm como única finalidade a guerra, matar. c) Fiscal – recusar pagar impostos para aquilo que o Governo investe em armas.

É claro que este sistema económico-financeiro militarizado se conserva de pé devido ao enorme poder dos mass media. É inegável o impacte que, sobretudo, a televisão tem nas pessoas:

* Não à televisão. Quanto menos televisão virmos, melhor ficamos.

* Sim à leitura de jornais sérios, de revistas empenhadas ou de livros.

* Utilizar a Internet para difundir notícias e criar redes.

* Maior utilização da rádio, sobretudo das rádios locais, para dar notícias.


Empenho ecológico. É claro que este sistema económico-financeiro destrói o planeta. Cada um de nós pode fazer muito para reduzir o impacte negativo, mesmo no quotidiano:

* Protestar quando nos embrulham os produtos com uma embalagem excessiva;

* Privilegiar os produtos da agricultura biológica;

* Privilegiar os produtos embalados em vácuo no vidro;

* Perguntar se os objectos que compramos têm arranjo;

* Exigir que os produtos que compramos não sejam fruto de trabalho infantil ou tenham poluído os países de onde vêm;

* Comprar, sempre que possível, nas Lojas de Comércio Justo e Solidário;

* Adquirir, sempre que possível, produtos locais.

* Reciclar cuidadosamente todas as matérias, para evitar desperdício de materiais e combater a incineração do lixo.

* Recusar os produtos com embalagens inúteis.

Tudo isto requer uma coordenação e uma incrível capacidade de agir em rede. É esse o segredo que permitirá a este movimento dar um salto de qualidade, como insistem em dizer os americanos Brecher e Costello nos seus dois esplêndidos compêndios Contra o Capital Global e Como Construir Um Movimento Global. Não vai ser fácil, mas é uma grande esperança se se quiser evitar uma catástrofe.




Fonte do texto:
www.alem-mar.org
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sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Um mensagem vinda do futuro!



Carta escrita em 2070


Acabo de completar 50 anos, mas a minha aparência é de alguém com 85. Tenho sérios problemas renais porque bebo muito pouca água. Creio que me resta pouco tempo. Hoje sou uma das pessoas mais idosas nesta sociedade. Recordo quando tinha cinco anos. Tudo era muito diferente. Havia muitas árvores nos parques, as casas tinham bonitos jardins e eu podia desfrutar de um banho de chuveiro. Agora usamos toalhas de azeite mineral para limpar a pele. Antes, todas as mulheres mostravam seus lindos cabelos. Agora, devemos raspar a cabeça para mantê-la limpa sem água. Antes, o meu pai lavava o carro com uma mangueira. Hoje, não se acredita que a água se utilizava dessa forma. Recordo que havia muitos anúncios que diziam “ Cuidem da água”, só que ninguém lhes ligava, pensávamos que a água jamais podia acabar. Agora, todos os rios, barragens, lagoas e mantos aqüíferos estão irreversivelmente contaminados ou esgotados. Antes, a quantidade de água indicada como ideal para beber eram oito copos por dia por pessoa adulta. Hoje só posso beber meio copo. A roupa é descartável, o que aumenta grandemente a quantidade de lixo e tivemos que voltar a usar os poços sépticos (fossas) como no século passado já que as redes de esgotos não se usam por falta de água. A aparência da população é horrorosa; corpos desfalecidos, enrugados pela desidratação, cheios de chagas na pele provocadas pelos raios ultravioletas que já não tem a camada de ozônio que os filtrava na atmosfera.Imensos desertos constituem a paisagem que nos rodeia por todos os lados. A indústria está paralisada e o desemprego é dramático. As fábricas dessalinizadoras são as principais fontes de emprego e pagam-nos em água potável os salários. Os assaltos por uma garrafa água são comuns nas ruas desertas. A comida é 80% sintética. Pela ressequidade da pele, uma jovem de 20 anos está como se tivesse 40. Os cientistas investigam, mas não parece haver solução possível. Não se pode fabricar água, o oxigênio também está degradado por falta de árvores e isso ajuda a diminuir o coeficiente intelectual das novas gerações. Alterou-se também a morfologia dos espermatozóides de muitos indivíduos e como conseqüência há muitos meninos com insuficiências, mutações e deformações. O governo cobra-nos pelo ar que respiramos. As pessoas que não podem pagar são retiradas das "zonas ventiladas". Estas estão dotadas de gigantescos pulmões mecânicos que funcionam a energia solar. Embora não sendo de boa qualidade, pode-se respirar. A idade média é de 35 anos. Em alguns países existem manchas de vegetação normalmente perto de um rio, que é fortemente vigiado pelo exercito. A água tornou-se num tesouro muito cobiçado - mais do que o ouro ou os diamantes. Aqui não há arvores, porque quase nunca chove e quando se registra precipitação, é chuva ácida. As estações do ano têm sido severamente alteradas pelos testes atômicos. Advertiam-nos que devíamos cuidar do meio ambiente e ninguém fez caso. Quando a minha filha me pede que lhe fale de quando era jovem descrevo o bonito que eram os bosques, lhe falo da chuva, das flores, do agradável que era tomar banho e poder pescar nos rios e barragens, beber toda a água que quisesse o saudável que era a gente, ela pergunta-me: Papai... Porque se acabou a água? Então, sinto um nó na garganta; não deixo de me sentir culpado, porque pertenço à geração que foi destruindo o meio ambiente ou simplesmente não levamos em conta tantos avisos. Agora os nossos filhos pagam um preço alto e sinceramente creio que a vida na terra já não será possível dentro de muito pouco tempo porque a destruição do meio ambiente chegou a um ponto irreversível. Como gostaria voltar atrás e fazer com que toda a humanidade compreendesse isto, quando ainda podíamos fazer alguma coisa para salvar nosso planeta.




Postado em 18/05/07, por Raquel Mendonça no blogue
Deslimites do Ser
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